Não queria falar nada sério. Apenas uma conversa displicente com o papel. Sem ligar muito para as preposições corretas, desligou-se. Sem sintaxe por hoje, pensava, com determinação. Pela primeira vez podia bater os dedos com firmeza sobre o teclado, sem pensar em prazos, contas para pagar – essas preocupações mundanas. Não acionou Google ou planilhas uma única vez. Como em uma piscina profunda, mergulhou na tela branca que simula papel sulfite.
Era madrugada. Os neurônios, cansados, já não sabiam mais o movimento – que imagino ser iluminado – a conduzir suas substâncias. Todo aquele sódio e potássio circulando sobre as longilíneas pernas de neurônios exaustos. Seriam as bombas verdadeiros micro-espetáculos pirotécnicos ou tomariam os moldes de barulhentas explosões? Queremos sair da fôrma, gritam eles todo momento. Gentilmente, acolho a reivindicação. Mas as palavras começam tímidas, acanhadas com toda aquela folga somente para elas. As horas se desgastam até que a escrita vire fluente.
É como aquela história que se repete sempre. Um lunático seqüestra uma pobre alma, a joga em cárcere privado – que geralmente tem formato de cativeiro. Se ela tiver sorte, fará sexo com o algoz. Se for ainda mais sortuda, a complicada relação vai gerar rebentos.
Um dia, batem à porta. É a polícia, que leva o gentil senhor embora. Ela então fica ressabiada. Imagino que alguém venha lhe dizer que é livre. E isso, em um primeiro momento, não vai lhe dizer nada. Poucas palavras talvez, sem muito sentido. Acostumou-se a uma rotina, por mais perverso que isso possa parecer. Me sinto assim. Não totalmente, óbvio. Meus algozes são tão bonzinhos quanto, mas eu não sou uma americana peituda.
Tem também o caso do presidiário. Acostumado ao clichê do sol quadrado por anos, sente-se deslocado e com as noções espaciais um tanto quanto avariadas. As palavras estão em regime semi-aberto, mas prontas para voltar à vida do crime. E espero que não pretendam voltar para dormir.
Por fim, não podemos deixar de recorrer ao modelo clássico do sedentário. Há sempre algo menos trabalhoso a fazer. Por que deitar a ponta dos dedos sobre o teclado pode ser uma boa coisa? Exercícios, ainda que mentais, tomam proporções de trabalho hercúleo.
Mil oitocentos e quarenta e três caracteres (com espaço) depois, vejo que, no sentido mais figurado para o último exemplo, levantei do sofá. Na certa, é apenas um modismo bobo.
Mas também não preciso ser um estraga-prazeres.